A invenção do texto

Carlos Gaspar - 13 Contos

Carlos Gaspar não busca no trabalho literário um sucedâneo descompromissado ou ameno para o seu duro e sério labor empresarial. As letras, no seu duplo sentido, lhe fornecem as possibilidades para reconciliar criativamente as pendências intercambiáveis da matéria e do espírito.

Este é um livro de contos, de crônicas, de reminiscências transfiguradas, ou, tudo isso é mais o resultado de uma invenção verbal necessária para a recriação do universo de quem o escreveu?

A começar pelo homem, que é "um invento de Deus", o autor, que acrescenta ser "um invento de meus pais", chega à afirmação conclusiva do conto número 13, com que finaliza no início o seu livro, corroborando o verso eliotiano de que no fim está o começo, na certeza também de que o por ele inventado está latente em si.

Este livro de Carlos Gaspar é a revelação daquilo que já intuíam os leitores de seus artigos: o talento para transfigurar lembranças e fatos num contexto propício à sua desenvoltura ficcional.

É como se o narrado, ao fazer-se, cumprisse a estratégia não mistificadora a que ele se submete para uma melhor análise das situações, também psicológicas, dos seus personagens.

Não é, pois, matéria fácil classificar um livro como este, em que o fazer literário se realiza entre os limites daqueles diversos gêneros e que resulta por isso fora da compressiva uniformidade que se faz erroneamente complexa.

O livro se constitui em 12 relatos e o capítulo conclusivo (o conto 13 que principia o livro) de um autor que busca compreender os enredos em que ficcionalmente se envolveu, através de um fazer textual claro e objetivo, para chegar à realização contextual, que soa como metáfora do universo: esta invenção de todos.

A facilidade vocabular com que Carlos Gaspar desenvolve o enredo factual destes contos, na elegância de um estilo a denotar a convivência diária com os bons autores, e a montagem dessa matéria, são elementos presentes neste livro, dando ao seu autor a plena posse afirmativa de um estilo pessoal.

Nauro Machado


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